Segunda-feira, 20 de Julho de 2009
Pura arte
Ana Jácomo
Amigo, obra-prima que conta o milagre que acontece toda vez que a vida arruma um modo para aproximar as almas irmãs. Buquê de risos desarmados, olhares que ouvem, abraços que dizem. Árvore frondosa e a sombra dela, onde podemos descansar um pouco, ouvir o canto bom de um passarinho e outro, sorrir para a folha que sabe dançar mesmo quando cai. Lugar de azul macio quando faz sol no coração da gente e quando as chuvas mais fortes alagam nossos olhos. Canção feita de acordes que acordam belezas que às vezes demoram à beça para cantar de novo. Uma ideia feliz do quanto o amor é pura arte.
No dia em que se convencionou comemorar a amizade, que é para ser comemorada a cada instante que o tempo desembrulha, expresso o desejo sincero de que os amigos de todo mundo sejam pra sempre abençoados. Digo, especialmente, a perene gratidão aos meus, jóias raras, inestimáveis, que a vida semeou no meu jardim em seus momentos risonhos de dádiva.
Obrigada a cada um pelo imenso bem. Pelo olhar que, de verdade, me vê. Por me ajudar a respirar mais macio. Pela mão que segura a minha, tanto faz se é inverno ou primavera, se olho pra vida com olhos de chuva ou com olhos de sol. Abraço cada um com todo o coração e o meu melhor sorriso. Hoje. Sempre.
Ana Jácomo
Ao encontrar o amigo novo, senti o viço que se esparrama na alma toda vez que um afeto floresce, as folhas muito verdes, os galhos carregados de brotos de amor. Senti vontade de lhe mostrar os meus brinquedos e de conhecer os dele. Senti o entusiasmo de falar e de ouvir, mas também o descanso que há em não precisarmos de palavra alguma para nos compreendermos. Só a afinidade legítima é capaz do silêncio sem embaraço. Só ela permite uma outra maneira de fala. Um idioma que apenas o coração domina. Uma comunicação que acontece numa frequência diferente de toda lógica.
É no olhar, sobretudo, que a amizade se confirma. É no jeito de olhar que nos reconhecemos no primeiro momento, nós, amigos recentes de longas datas. Isso porque amigo tem esse olhar bom: ele nos olha como se realmente quisesse nos ver, sem nenhum outro interesse que não seja a oportunidade boa e rara de partilhar amor. Ele nos vê e permanece ao nosso lado, esse conforto que palavra alguma é capaz de traduzir. Esse detalhe grandioso que faz toda a mágica acontecer, porque amar é também a arte de cuidar com os olhos.
Do texto "Para o amigo novo"
Domingo, 19 de Julho de 2009
Essa rede invisível de amor
Ana Jácomo
“A felicidade não se compra", de 1946, dirigido por Frank Capra, é um dos filmes mais lindos que já assisti. Descobri há uns dez anos, por meio da citação de um palestrante. Curiosa, eu que adoro descobrir belezas, fui procurar na locadora. Fiquei encantada pela história, que conta, entre outras coisas, o quanto “cada vida humana é capaz de tocar muitas outras vidas” de forma preciosa e singular, mesmo sem ter essa percepção.
George Bailey, o protagonista, interpretado pelo ator James Stewart, é um homem de bom coração, gestos nobres, que assume os negócios do pai e, num momento de extremo desespero pela perspectiva da iminente falência, pensa em se matar e considera que teria sido melhor não ter nascido. Aí começa a parte mais interessante do filme: um anjo meio atrapalhado aparece no instante de sua dor mais aguda e o faz mergulhar numa espécie de sonho para lhe mostrar como seria diferente a história de algumas pessoas que havia encontrado em seu caminho se, de fato, não chegasse a nascer. Aparentemente despretensioso, o filme é de uma sensibilidade imensa.
Como é dito em algum trecho do roteiro, cada vida toca mesmo muitas outras vidas. Direta ou indiretamente. No nosso cotidiano, tantas vezes árido, agitado, apertado, a gente não percebe. Não registra. Não lembra disso. Mas se pudermos parar um pouquinho, e afastar o sentimento dessa roda-viva, é possível notar o quanto a nossa vida está ligada a outras tantas numa rede invisível, tecida com fios de puro sentimento. O quanto o fato de existirmos influencia, de diferentes jeitos e em variadas circunstâncias, outras tantas vidas, conhecidas e anônimas. Gente que já passou por nós e nem sabemos mais por onde anda. Gente que continua próxima dos nossos olhos. Gente que continua próxima apenas do nosso amor. Gente cuja vida esbarra na nossa de forma muito rápida, mas nem por isso menos valiosa. Pessoas que, às vezes, sequer sabemos quem são.
Não estamos separados, como tantas vezes sentimos. É fantástico ter olhos para ver a amorosa rede de conexões que cada vida representa. Quando tratamos uma pessoa com gentileza, respeito, cuidado, não é somente ela que está sendo tocada, mas toda a infinidade de inter-relações envolvidas na sua passagem pelo mundo, as que já existem e as que poderão vir a existir. Tocamos, em desdobramento, outras tantas histórias e possibilidades vinculadas àquela vida, única e intransferível. Cada pessoa é muita gente, além da preciosidade de ser simplesmente quem é.
Ao olhar para mim, sinto a presença de incontáveis vidas. Sem elas, não teria chegado até aqui da mesma forma. Gente da minha família de sangue. Gente da família que o meu coração cria, jornada afora. Gente que encontrei em algum ponto do caminho e nunca mais revi. Muitas me ajudaram sem sequer perceber, sem que eu tivesse tempo ou oportunidade para expressar o quanto. Recebi, em diferentes momentos, a dádiva de gestos de cuidado e amor que fizeram toda diferença. Sorrisos, olhares, escutas, abraços, palavras, silêncios compartilhados, muitas e muitas vezes foram nitidamente providenciais. Luciano de Crescenzo, escritor italiano, disse uma coisa linda: “Somos todos anjos com uma só e só podemos voar quando abraçados uns aos outros”. E não é?
Essa leitura da interdependência, que é também tão poética, nos convida a refletir sobre a responsabilidade das nossas ações em todo e qualquer encontro, mesmo desencontro depois. O filósofo Emerson, num texto que lhe é atribuído, diz que tivemos sucesso na nossa jornada quando ao menos uma vida respirou mais fácil porque nós vivemos. Essa perspectiva de contribuir para que outras vidas respirem melhor porque existimos nos faz redimensionar a importância da nossa estada por aqui. A natureza é um sistema vivo todo amoroso. Como parte dela, por essência, não somos diferentes. Precisamos aprender a respirar melhor e a ajudar, cada um do seu jeito, que outras vidas também respirem com mais facilidade. Não precisa ser por meio de feitos espetaculares. Pode ser nas miudezas do dia-a-dia, no improviso criado por cada instante. Isso já é grande à beça.
George Bailey, o protagonista, interpretado pelo ator James Stewart, é um homem de bom coração, gestos nobres, que assume os negócios do pai e, num momento de extremo desespero pela perspectiva da iminente falência, pensa em se matar e considera que teria sido melhor não ter nascido. Aí começa a parte mais interessante do filme: um anjo meio atrapalhado aparece no instante de sua dor mais aguda e o faz mergulhar numa espécie de sonho para lhe mostrar como seria diferente a história de algumas pessoas que havia encontrado em seu caminho se, de fato, não chegasse a nascer. Aparentemente despretensioso, o filme é de uma sensibilidade imensa.
Como é dito em algum trecho do roteiro, cada vida toca mesmo muitas outras vidas. Direta ou indiretamente. No nosso cotidiano, tantas vezes árido, agitado, apertado, a gente não percebe. Não registra. Não lembra disso. Mas se pudermos parar um pouquinho, e afastar o sentimento dessa roda-viva, é possível notar o quanto a nossa vida está ligada a outras tantas numa rede invisível, tecida com fios de puro sentimento. O quanto o fato de existirmos influencia, de diferentes jeitos e em variadas circunstâncias, outras tantas vidas, conhecidas e anônimas. Gente que já passou por nós e nem sabemos mais por onde anda. Gente que continua próxima dos nossos olhos. Gente que continua próxima apenas do nosso amor. Gente cuja vida esbarra na nossa de forma muito rápida, mas nem por isso menos valiosa. Pessoas que, às vezes, sequer sabemos quem são.
Não estamos separados, como tantas vezes sentimos. É fantástico ter olhos para ver a amorosa rede de conexões que cada vida representa. Quando tratamos uma pessoa com gentileza, respeito, cuidado, não é somente ela que está sendo tocada, mas toda a infinidade de inter-relações envolvidas na sua passagem pelo mundo, as que já existem e as que poderão vir a existir. Tocamos, em desdobramento, outras tantas histórias e possibilidades vinculadas àquela vida, única e intransferível. Cada pessoa é muita gente, além da preciosidade de ser simplesmente quem é.
Ao olhar para mim, sinto a presença de incontáveis vidas. Sem elas, não teria chegado até aqui da mesma forma. Gente da minha família de sangue. Gente da família que o meu coração cria, jornada afora. Gente que encontrei em algum ponto do caminho e nunca mais revi. Muitas me ajudaram sem sequer perceber, sem que eu tivesse tempo ou oportunidade para expressar o quanto. Recebi, em diferentes momentos, a dádiva de gestos de cuidado e amor que fizeram toda diferença. Sorrisos, olhares, escutas, abraços, palavras, silêncios compartilhados, muitas e muitas vezes foram nitidamente providenciais. Luciano de Crescenzo, escritor italiano, disse uma coisa linda: “Somos todos anjos com uma só e só podemos voar quando abraçados uns aos outros”. E não é?
Essa leitura da interdependência, que é também tão poética, nos convida a refletir sobre a responsabilidade das nossas ações em todo e qualquer encontro, mesmo desencontro depois. O filósofo Emerson, num texto que lhe é atribuído, diz que tivemos sucesso na nossa jornada quando ao menos uma vida respirou mais fácil porque nós vivemos. Essa perspectiva de contribuir para que outras vidas respirem melhor porque existimos nos faz redimensionar a importância da nossa estada por aqui. A natureza é um sistema vivo todo amoroso. Como parte dela, por essência, não somos diferentes. Precisamos aprender a respirar melhor e a ajudar, cada um do seu jeito, que outras vidas também respirem com mais facilidade. Não precisa ser por meio de feitos espetaculares. Pode ser nas miudezas do dia-a-dia, no improviso criado por cada instante. Isso já é grande à beça.
Terça-feira, 14 de Julho de 2009
Com o coração
Foto de Regina BentesAna Jácomo
Hoje eu não quero conversas vestidas de uniforme. Diálogos impecavelmente arrumados que não deixam o coração à mostra. As palavras podem sair de casa sem maquiagem. Podem surgir com os cabelos desalinhados, livres de roupas que as apertem, como se tivessem acabado de acordar. Dispensa-se tons acadêmicos, defesas de tese, regras para impressionar o interlocutor. O único requinte deve ser o sentimento. É desnecessário tentar entender qualquer coisa. Tentar solucionar qualquer problema. Buscar salvamento para o quer que seja.
Hoje eu não quero falar sobre o quanto o mundo está doente. Sobre como está difícil a gente viver. Sobre as milhares de coisas que causam câncer. Sobre as previsões de catástrofes que vão dizimar a humanidade. Sobre o quanto o ser humano pode ser também perverso, corrupto, tirano e outras feiúras. Sobre os detalhes das ações violentas noticiadas nos jornais. Não quero o blablablá encharcado de negatividade que grande parte das vezes não faz outra coisa além de nos encher de mais medo. Não quero falar sobre a hipocrisia que prevalece, sob vários disfarces, em tantos lugares. Hoje, não. Hoje, não dá. Não me interessam o disse-que-disse, os julgamentos, a investigação psicológica da vida alheia, os achismos sobre as motivações que fazem as pessoas agirem assim ou assado, o dedo na ferida.
Hoje eu não quero aquelas conversas contraídas pelo receio de não se ter assunto. A aflição de não se saber o que fazer se ele, de repente, acabar. O esforço de se falar qualquer coisa para que a nossa quietude não seja interpretada como indiferença. Hoje eu não quero aquelas conversas que muitas vezes acontecem somente para preenchermos o tempo. Para tentarmos calar a boca do silêncio. Para fugirmos da ameaça de entrar em contato com um monte de coisas que o nosso coração tem pra dizer. Além do necessário, hoje não quero falar só por falar nem ouvir só por ouvir. Que a fala e a escuta possam ser um encontro. Um passeio que se faz junto. Um tempo em que uma vida se mostra para a outra, com total relaxamento, sem se preocupar se aquilo que é mostrado agrada ou não. Se aumenta ou diminui os índices de audiência.
Hoje, se quiser, se puder, se souber, me fala de você. Da essência vestida com essa roupa de gente com a qual você se apresenta. Fala dos seus amores, tanto faz se estão perto do seu corpo ou somente do seu coração. Fala sobre as coisas que costumam fazer você sintonizar a frequência do seu riso mais gostoso. Fala sobre os sonhos que mantêm o frescor, por mais antigos que sejam. Fala a partir daquilo em você que não desaprendeu o caminho das delícias. Do pedaço de doçura que não foi maculado. Da porção amorosa que saiu ilesa à própria indelicadeza e à alheia. A partir daquilo em você que continuou a acreditar na ternura, a se encantar e a se desprevenir, apesar de tantos apesares. Conta sobre as receitas que lhe dão água na boca. Sobre o que gosta de fazer para se divertir. Conta se você reza antes de adormecer.
Hoje, me fala de você. Dos momentos em que a vida lhe doeu tanto que você achou que não iria aguentar. Fala das músicas que compõem a sua trilha sonora. Dos poemas que você poderia ter escrito, de tanto que traduzem a sua alma. Senta perto de mim e mesmo que estejamos rodeados por buzinas, gente apressada, perigos iminentes, faz de conta que a gente está conversando no quintal de casa, descascando uma laranja, os pés descalços, sem nenhum compromisso chato à nossa espera. A gente já brincou tanto de faz-de-conta quando era criança, onde foi que a gente esqueceu como se chega a esse lugar de inocência? Fala da lua que você admirou outra noite dessas, no céu. Da borboleta que lhe chamou à atenção por tanta beleza, abraçada a alguma flor, como se existisse apenas aquele abraço. Diz se quando você acorda ainda ouve passarinhos, mesmo que não possa identificar de onde vem o canto. Diz se a sua mãe cantava para fazer você dormir.
Senta perto e me conta o que você sentiu quando viu o mar pela primeira vez e o que sente quando olha pra ele, tantas vezes depois. Se tinha jardim na casa da sua infância, me diz que flores riam por lá. Conta há quanto tempo não vê uma joaninha. Se tinha algum apelido na escola. Se consegue se imaginar bem velhinho. Fala da sua família, a de origem ou a que formou. Das pessoas que não têm o seu sobrenome, mas são familiares pra sua alma. Fala de quem passou pela sua vida e nem sabe o quanto foi importante. Daqueles que sabem e você nem consegue dizer o tamanho que têm de verdade. Fala daquele animal de estimação que deitava junto aos seus pés, solidário, quando você estava triste. Diz o que vai ser bacana encontrar quando, bem lá na frente, olhar para o caminho que fez no mundo, em retrospectiva.
Podemos falar abobrinhas, desde que sejam temperadas com riso, esse tempero que faz tanto bem. A gente pode rir dos tombos que você levou na rua e daqueles que levou na vida, dos quais a gente somente consegue rir muito depois, quando consegue. A gente pode rir das suas maluquices românticas. Das maiores encrencas que já arrumou. Das ciladas que armaram para você e, antes de entender que eram ciladas, chegou até a agradecer por elas. De quando descobriu como são feitos os bebês. A gente pode rir dos cárceres onde se prendeu e levou um tempo imenso pra descobrir que as chaves estavam com você o tempo todo. Das vezes em que se sentiu completamente nu diante de um Maracanã lotado, tamanha vergonha, como se todos os olhos do mundo estivessem voltados na sua direção. Das mentiras que contou e acreditaram com facilidade. Das verdades que disse e não levaram a sério.
Não precisa ter pauta, seguir roteiro, deixa a conversa acontecer de improviso, uma lembrança puxando a outra pela mão, mas conta de você e deixa eu lhe contar de mim. Dessas coisas. De outras parecidas. Ouve também com os olhos. Escuta o que eu digo quando nem digo nada: a boca é o que menos fala no corpo. Não antecipe as minhas palavras. Não se impaciente com o meu tempo de dizer. Não me pergunte coisas que vão fazer a minha razão se arrumar toda para responder. Uma conversa sem vaidade, ninguém quer saber qual história é a mais feliz ou a mais desditosa.
Hoje eu quero conversar com um amigo pra falar também sobre as coisas bacanas da vida. As miudezas dela. A grandeza dela. A roda-gigante que ela é, mesmo quando a gente vive como se estivesse convencido de que ela é trem-fantasma o tempo inteiro. Um amigo pra falar de coisas sensíveis. Do quanto o ser humano pode ser também bondoso, honesto, afetuoso, divertido e outras belezas. Dos lugares onde nossos olhos já pousaram e daqueles onde pousam agora. Um amigo para conversar horas adentro, com leveza, de coisas muito simples, como a gente já fez mais amiúde e parece ter desaprendido como faz. Um amigo para se conversar com o coração.
E se não quisermos, não pudermos, não soubermos, com palavras, nos dizer um pouco um para o outro, senta ao meu lado assim mesmo. Deixa os nossos olhos se encontrarem vez ou outra até nascer aquele sorriso bom que acontece quando a vida da gente se sente olhada com amor. Senta apenas ao meu lado e deixa o meu silêncio conversar com o seu. Às vezes, a gente nem precisa mesmo de palavras.
Hoje eu não quero aquelas conversas contraídas pelo receio de não se ter assunto. A aflição de não se saber o que fazer se ele, de repente, acabar. O esforço de se falar qualquer coisa para que a nossa quietude não seja interpretada como indiferença. Hoje eu não quero aquelas conversas que muitas vezes acontecem somente para preenchermos o tempo. Para tentarmos calar a boca do silêncio. Para fugirmos da ameaça de entrar em contato com um monte de coisas que o nosso coração tem pra dizer. Além do necessário, hoje não quero falar só por falar nem ouvir só por ouvir. Que a fala e a escuta possam ser um encontro. Um passeio que se faz junto. Um tempo em que uma vida se mostra para a outra, com total relaxamento, sem se preocupar se aquilo que é mostrado agrada ou não. Se aumenta ou diminui os índices de audiência.
Hoje, se quiser, se puder, se souber, me fala de você. Da essência vestida com essa roupa de gente com a qual você se apresenta. Fala dos seus amores, tanto faz se estão perto do seu corpo ou somente do seu coração. Fala sobre as coisas que costumam fazer você sintonizar a frequência do seu riso mais gostoso. Fala sobre os sonhos que mantêm o frescor, por mais antigos que sejam. Fala a partir daquilo em você que não desaprendeu o caminho das delícias. Do pedaço de doçura que não foi maculado. Da porção amorosa que saiu ilesa à própria indelicadeza e à alheia. A partir daquilo em você que continuou a acreditar na ternura, a se encantar e a se desprevenir, apesar de tantos apesares. Conta sobre as receitas que lhe dão água na boca. Sobre o que gosta de fazer para se divertir. Conta se você reza antes de adormecer.
Hoje, me fala de você. Dos momentos em que a vida lhe doeu tanto que você achou que não iria aguentar. Fala das músicas que compõem a sua trilha sonora. Dos poemas que você poderia ter escrito, de tanto que traduzem a sua alma. Senta perto de mim e mesmo que estejamos rodeados por buzinas, gente apressada, perigos iminentes, faz de conta que a gente está conversando no quintal de casa, descascando uma laranja, os pés descalços, sem nenhum compromisso chato à nossa espera. A gente já brincou tanto de faz-de-conta quando era criança, onde foi que a gente esqueceu como se chega a esse lugar de inocência? Fala da lua que você admirou outra noite dessas, no céu. Da borboleta que lhe chamou à atenção por tanta beleza, abraçada a alguma flor, como se existisse apenas aquele abraço. Diz se quando você acorda ainda ouve passarinhos, mesmo que não possa identificar de onde vem o canto. Diz se a sua mãe cantava para fazer você dormir.
Senta perto e me conta o que você sentiu quando viu o mar pela primeira vez e o que sente quando olha pra ele, tantas vezes depois. Se tinha jardim na casa da sua infância, me diz que flores riam por lá. Conta há quanto tempo não vê uma joaninha. Se tinha algum apelido na escola. Se consegue se imaginar bem velhinho. Fala da sua família, a de origem ou a que formou. Das pessoas que não têm o seu sobrenome, mas são familiares pra sua alma. Fala de quem passou pela sua vida e nem sabe o quanto foi importante. Daqueles que sabem e você nem consegue dizer o tamanho que têm de verdade. Fala daquele animal de estimação que deitava junto aos seus pés, solidário, quando você estava triste. Diz o que vai ser bacana encontrar quando, bem lá na frente, olhar para o caminho que fez no mundo, em retrospectiva.
Podemos falar abobrinhas, desde que sejam temperadas com riso, esse tempero que faz tanto bem. A gente pode rir dos tombos que você levou na rua e daqueles que levou na vida, dos quais a gente somente consegue rir muito depois, quando consegue. A gente pode rir das suas maluquices românticas. Das maiores encrencas que já arrumou. Das ciladas que armaram para você e, antes de entender que eram ciladas, chegou até a agradecer por elas. De quando descobriu como são feitos os bebês. A gente pode rir dos cárceres onde se prendeu e levou um tempo imenso pra descobrir que as chaves estavam com você o tempo todo. Das vezes em que se sentiu completamente nu diante de um Maracanã lotado, tamanha vergonha, como se todos os olhos do mundo estivessem voltados na sua direção. Das mentiras que contou e acreditaram com facilidade. Das verdades que disse e não levaram a sério.
Não precisa ter pauta, seguir roteiro, deixa a conversa acontecer de improviso, uma lembrança puxando a outra pela mão, mas conta de você e deixa eu lhe contar de mim. Dessas coisas. De outras parecidas. Ouve também com os olhos. Escuta o que eu digo quando nem digo nada: a boca é o que menos fala no corpo. Não antecipe as minhas palavras. Não se impaciente com o meu tempo de dizer. Não me pergunte coisas que vão fazer a minha razão se arrumar toda para responder. Uma conversa sem vaidade, ninguém quer saber qual história é a mais feliz ou a mais desditosa.
Hoje eu quero conversar com um amigo pra falar também sobre as coisas bacanas da vida. As miudezas dela. A grandeza dela. A roda-gigante que ela é, mesmo quando a gente vive como se estivesse convencido de que ela é trem-fantasma o tempo inteiro. Um amigo pra falar de coisas sensíveis. Do quanto o ser humano pode ser também bondoso, honesto, afetuoso, divertido e outras belezas. Dos lugares onde nossos olhos já pousaram e daqueles onde pousam agora. Um amigo para conversar horas adentro, com leveza, de coisas muito simples, como a gente já fez mais amiúde e parece ter desaprendido como faz. Um amigo para se conversar com o coração.
E se não quisermos, não pudermos, não soubermos, com palavras, nos dizer um pouco um para o outro, senta ao meu lado assim mesmo. Deixa os nossos olhos se encontrarem vez ou outra até nascer aquele sorriso bom que acontece quando a vida da gente se sente olhada com amor. Senta apenas ao meu lado e deixa o meu silêncio conversar com o seu. Às vezes, a gente nem precisa mesmo de palavras.
Segunda-feira, 13 de Julho de 2009
Sábado, 11 de Julho de 2009
As descobertas nossas de cada dia
Ana Jácomo
Parei na barraca das flores para finalizar as compras da feira naquela manhã de segunda. O vendedor já me conhece, sempre encerro os trabalhos por lá. “O que vai ser hoje, freguesa?”, é o início do papo. Às vezes, nada. Às vezes, a intenção é somente deixar a vida descansar um pouco, largar as sacolas pesadas no chão, alimentar a alma e, depois, seguir meu rumo mais nutrida. Meus olhos não são econômicos para o que é bonito, duas câmeras castanho-escuras que buscam oportunidades para registrar belezas disponíveis e algumas vezes até encabuladas. E olha que eles são míopes, astigmáticos, e, segundo me disseram, recentemente, já estão um pouquinho cansados. Meus óculos, agora, são multifocais, e minhas lentes de contato uma esquisite só, faz parte das mudanças todas dos últimos tempos.
Viver dá trabalho, me disse um amigo, outro dia. Dá, sim. Dá, também. Desconfio até que tem dado mais, ultimamente. Tenho a impressão de que as sombras todas, individuais e coletivas, estão vindo à tona numa celeridade inédita. Otimista que sou, acredito que é para transformar, mas haja luz para nos entendermos com elas. Em nenhum outro momento da minha vida, eu vi tanta crueldade, tanta expressão da ignorância, tanta feiúra de alma. Vivemos uma crise muito séria de empobrecimento dos valores humanos mais básicos. E não é lá longe, não. É tudo muito perto da gente, até porque, de uns tempos pra cá, o mundo parece estar no quintal da nossa casa. Querendo ou não, somos informados, diariamente, sobre fatos de fazer o coração se arrepiar todinho de espanto. Dá trabalho, sim.
É também por isso, para compensar um pouco essas feiúras todas, para buscar equilíbrio para o olhar, que eu procuro não perder as oportunidades para descobrir e apreciar coisas bonitas. Aquelas que os olhos e o coração veem juntos e aquelas que só o coração pode ver. Nas caminhadas por aí, na conversa fortuita com desconhecidos, no encontro com os amigos, as antenas costumam estar prontas para captar belezas explícitas ou sutis. Com exceção, é claro, dos dias em que a confusão, o cansaço, o medo, me alcançam de tal forma que me desequilibram toda. Quando é assim, tudo fica tão embaçado que eu não consigo ver lindeza nenhuma, por mais reluzente que seja, mesmo que esteja a poucos centímetros de mim. Por seguir essa proposta, paro na barraca das flores, na feira, embora nem sempre tenha a intenção de trazer nenhuma flor comigo, senão no sentimento.
É também por isso, para compensar um pouco essas feiúras todas, para buscar equilíbrio para o olhar, que eu procuro não perder as oportunidades para descobrir e apreciar coisas bonitas. Aquelas que os olhos e o coração veem juntos e aquelas que só o coração pode ver. Nas caminhadas por aí, na conversa fortuita com desconhecidos, no encontro com os amigos, as antenas costumam estar prontas para captar belezas explícitas ou sutis. Com exceção, é claro, dos dias em que a confusão, o cansaço, o medo, me alcançam de tal forma que me desequilibram toda. Quando é assim, tudo fica tão embaçado que eu não consigo ver lindeza nenhuma, por mais reluzente que seja, mesmo que esteja a poucos centímetros de mim. Por seguir essa proposta, paro na barraca das flores, na feira, embora nem sempre tenha a intenção de trazer nenhuma flor comigo, senão no sentimento.
Mas, quando resolvo trazê-las, o dono da barraca também precisa de dinheiro, geralmente acabo escolhendo o girassol, a minha flor preferida. Gosto de todas elas, do jeito de cada uma, aprecio, aplaudo com o meu encanto, agradeço, mas o girassol tem a minha predileção. Além da exuberância da cor, da vividez, do formato, acho linda essa metáfora que ele nos sugere: girar, crescer, na direção da luz. Apesar e por causa das nossas sombras todas e das sombras todas do mundo, acredito que é também para realizar isso que estamos juntos nesse barco. O girassol, para mim, simboliza essa meta espiritual da jornada humana. Ele me lembra o que também faço por aqui, eu que tantas vezes ainda esqueço.
Naquela manhã lá do primeiro parágrafo, eu vi uma flor que nunca tinha visto. Se vi, não me recordo. Tão bonita, que flor é essa, eu perguntei, os olhos embebidos da novidade. Cravínea, o vendedor respondeu. “Leva o ramalhete e escolhe uma por minha conta”, sugeriu querendo fazer negócio. Eu trouxe. Vim pela rua toda prosa com o tal ramo de flores e, pra não me afastar muito do coração, com o girassol que ganhei pela compra. Cheguei em casa, coloquei no jarro e levei para a sala. Ele me disse que duravam e não mentiu: mais de uma semana. Cada vez que eu olhava para as cravíneas, durante aquele período, era com os olhos felizes de descoberta. Sempre que dou de cara com o novo, eu me pergunto quantas coisas bonitas existem, agora, paralelas à minha vida, sem que eu tenha a mínima ideia. Isso enche meu coração de alegria. E de esperança.
Léo Buscaglia, um psicólogo e escritor muito amoroso, que influenciou a minha juventude e talvez a abordagem dos meus textos, me contou num de seus livros que todas as noites, na hora do jantar em família, seu pai pedia para ele e os irmãos lhe contarem algo que haviam descoberto naquele dia. Eu achei essa ideia maravilhosa, quando li. Continuo achando. Não deveríamos dormir sem termos feito pelo menos uma descoberta. Por mais insignificante que pareça. Naquele dia, eu descobri que existe uma flor que se chama cravínea. É um prazer conhecê-la, cravínea, eu sou a Ana, foi mais ou menos assim.
Quando estamos receptivos, podemos descobrir coisas imperdíveis. Podemos buscá-las ou simplesmente ter o coração aberto para acolhê-las. Um poema, uma música, um alimento, uma palavra, um gesto, um jeito de fazer diferente o que há séculos fazemos da mesma forma, uma habilidade nossa até então ignorada, um detalhe na rua onde passamos todo dia, uma maneira de sorrir que nunca tínhamos percebido naquela pessoa tão amada. Sem a luz da novidade, a vida da gente acaba se transformando num mormaço tedioso. Um prato cheio para os olhos só perceberem a esquisitice nossa de cada dia, a dureza, a aridez, os problemas. Viver dá trabalho, sim. Mas é pra dar alegria, sobretudo, embora a gente tantas vezes demonstre esquecer.
Com o tempo, a vista pode até ficar cansada. Complica, de verdade, é quando o olhar fica.
Com o tempo, a vista pode até ficar cansada. Complica, de verdade, é quando o olhar fica.
Sexta-feira, 10 de Julho de 2009
Fé
Ana Jácomo
Sei que há em toda circunstância alguma espécie de dádiva que o meu coração, tantas vezes míope, não consegue enxergar bem, de longe.
O tempo, não importa de quantos giros dos ponteiros seja feito, aproxima as lições. O tempo, só o tempo, com o seu zoom maravilhoso e revelador.
A minha vida reverencia essa sabedoria. Não sei nada, na maioria das vezes não entendo nada, mas eu tenho fé.
Quinta-feira, 9 de Julho de 2009
Assinar:
Postagens (Atom)







