sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Com o coração aberto

Foto de Klaudya Ricarto

Ana Jácomo

Às vezes, na estranha tentativa de nos defendermos da suposta visita da dor, soltamos os cães. Apagamos as luzes. Fechamos as cortinas. Trancamos as portas com chaves, cadeados e medos. Ficamos quietinhos, poucos movimentos, nesse lugar escuro e pouco arejado, pra vida não desconfiar que estamos em casa. A encrenca é que, ao nos protegermos tanto da possibilidade da dor, acabamos nos protegendo também da possibilidade de lindas alegrias. Impossível saber o que a vida pode nos trazer a qualquer instante, não há como adivinhar se fugirmos do contato com ela, se não abrirmos a porta. Não há como adivinhar e, se é isso que nos assusta tanto, é isso também que nos motiva.

É maravilhoso quando conseguimos soltar um pouco o nosso medo e passamos a desfrutar a preciosa oportunidade de viver com o coração aberto, capaz de sentir a textura de cada experiência, no tempo de cada uma. Sem estarmos enclausurados em nós mesmos, é certo que aumentamos as chances de sentir um monte de coisas, agradáveis ou não, mas o melhor de tudo, é que aumentamos as chances de sentir que estamos vivos. Podemos demorar bastante para perceber o óbvio: coração fechado já é dor, por natureza, e não garante nada, além de aperto e emoções mofadas. Como bem disse Virginia Woolf, “não se pode ter paz evitando a vida.”

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Alegria (Cirque du Soleil)

Um jeito de prece

Foto de Regina Bentes

Ana Jácomo

Com gentileza, abrando os meus ruídos. Diminuo o volume da tagarelice exaustiva dos pensamentos. Permito que a minha respiração se acalme até ficar macia. Sinto o meu coração com o contentamento de quem reencontra um amigo muito querido. Começo a visualizar um lugar bem bonito. Desenho nele árvores e plantas, utilizando diferentes combinações de cores e tamanhos para suas folhas, flores e frutos. Desenho rios, lagos, cachoeiras, e também montanhas e pedras de vários tons e formatos. Pinto o céu com o azul mais vivo que pulsa na minha memória e solto nele pássaros das mais variadas espécies.

Desenho uma bola dourada que vibra, imensa, dentro desse azul. Tão vívida, que só por desenhá-la o meu corpo estremece, num arrepio de ternura, pela energia que ela emana. Levo para esse lugar os animais dos quais consigo lembrar e os espalho em todos os cantos, livres e felizes. Retiro de uma caixa cheia de delicadezas o pote que contém a mistura dos sons e perfumes que se harmonizam, em frequência, com o que eu já criei. Abro a tampa do pote, jogo essa mistura mágica no ar e acendo tudo com os acordes e o cheiro da paz.

Entro nesse lugar. Caminho sem pressa e paro onde o meu coração me pede. Olho. Ouço. Sinto. Existe nele uma calma muito semelhante àquela que experimentei nos momentos de puro amor que já vivi. Há um sorriso sereno em meu rosto que se espalha em ondas por dentro, até que, de repente, eu me transformo nele: não sei mais onde ele acaba nem onde eu começo. Com os meus pés tocando, firmes, o chão, sinto o toque da brisa que acaricia meus cabelos. O calor do sol que pousa suavemente na minha pele e acende, acorda, colore tudo. Sinto que sou livre, saudável e harmônica, como cada pequeno detalhe que vibra ao meu redor. Sinto-me irmanada com cada um deles. É como se cada detalhe estivesse dentro de mim e eu estivesse dentro de cada um. Não há nada separado de nada. Há uma única e generosa pulsação de vida.

Reparo que há um grupo de pessoas vindo na minha direção. Há uma luz que canta em cada uma delas. Elas me amam e eu amo cada uma. Olho para mim e percebo que aquela luz também me envolve. Estamos ligadas por fios sutis desse lume. Elas chegam ao lugar onde me encontro. Uma delas se aproxima e pára diante de mim, perto, muito perto. Olho atentamente para ela, meus olhos conseguem tocá-la sem nenhuma pressa. Respiramos o mesmo sentimento. Sinto o perfume singular que ela tem. Pronuncio o seu nome com toda ternura de que sou capaz. Agradeço à vida pelo nosso (re)encontro. Agradeço pelo o que ela me ensina sobre o amor. Declaro a minha intenção de continuar a compartilhar com ela essa jornada evolutiva. Depois, trocamos um abraço caloroso. É a vida que vibra em mim que abraça, nesse momento, a vida que vibra nela. Sinto esse abraço e deixo que ele fale no nosso silêncio. Afasto-me gentilmente, abençoando essa vida da forma que sei. Ela também abençoa a minha vida da forma que sabe e se afasta. Olho, então, para a pessoa que está atrás dela, à espera de um novo abraço. Repito o movimento. E também com a outra. E com a outra. E com a outra.

Depois de abraçar cada uma, espontaneamente começamos a brincar de roda. Uma maneira lúdica de lembrar que somos feitos, sobretudo, para a alegria. De mãos dadas, começamos a girar leve e gostoso nessa roda de amor. Parece até que flutuamos e sabe de uma coisa? De alguma forma, flutuamos mesmo. Essa alegria que compartilhamos é tão pura que desejamos estendê-la a outros seres. Ao mundo. Devolvê-la à vida. Envolvidos nessa atmosfera, experimentamos com mais facilidade a certeza de que dar e receber é a mesma coisa. Que é impossível que se consiga separar um movimento do outro quando eles passam pela festa que o coração celebra.

Sem que ninguém diga nada, paramos de girar e concentramos toda a atenção nessa luz que começa em cada um. Ela aumenta progressivamente, tamanho e intensidade. Centrados no coração, visualizamos esse perfume amoroso tocando todos os amados que já trocaram de frasco e não estão visíveis nessa roda. Tocando todos aqueles que ainda não vivem a graça de experimentar o amor. Tocando todos os que estão doentes, seja lá onde a doença os machuque. Tocando os que se sentem assustados, amargurados, solitários, descrentes e cansados, e que têm disfarçado a sua dor através dos vícios, das agressões, da apatia, de uma vida sem compromisso genuíno. Tocando os que sentem fome de pão ou de clareza. Os que sentem sede de água ou de vida. Os que sentem frio de agasalho ou de afeto. Os que estão envolvidos nos conflitos que matam tanta gente, seja lá por qual desculpa da ignorância.

Enviamos também esse perfume para todos aqueles que, de alguma maneira, acreditaram que foram feridos por nós, com ou sem razão. Para todos aqueles que acreditamos que nos feriram também. Para cada vida que está presa na culpa ou na falta de perdão. Para todos aqueles que, de variadas maneiras, ajudam a manter acesa a luz na Terra, nesse nosso tempo tão escuro. Enviamos esse perfume para todos os lugares que o seu toque alcança, até lá nos mais distantes e inimagináveis.

Desfeita a roda, nós nos despedimos. Cada um, abençoado e nutrido por esse instante de amor compartilhado, retorna para o seu próprio caminho. Antes de ir embora, olho mais uma vez para esse lugar que criei, para onde posso retornar sempre que quiser. Para descansar dos desafios cotidianos. Para me perfumar com essa paz. Para me banhar com essa luz. Podemos escolher o que queremos criar. Onde demoramos mais os nossos olhos. Com o que alimentamos o nosso coração. O que propagamos sutilmente no mundo.

Ver com amor também é um jeito de prece.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Cansaço bom

Foto de Klaudya Ricarto

Ana Jácomo

Chega uma hora, uma bendita hora, em que acontece algo que, embora não aparente de imediato, pode ser a melhor notícia da temporada, a mais promissora, desde que não nos estreite os olhos, nem congele o coração: a gente se cansa. De algumas coisas. De um monte delas. Das ilusões. De se apertar pra caber em autoimagens que, na maioria das vezes, não têm nada a ver com a gente. Cansa de ficar à mercê da felicidade que parece acontecer só de fora pra dentro.

Nem todo cansaço é ruim. Há cansaço que destranca. Há cansaço que liberta. Há cansaço que é quase descanso, um pouquinho só dali. Há cansaço que é lume, depois de tanto suposto incansável breu. Há cansaço que cria espaço para harmonizarmos nossos passos com o caminho da nossa alma outra vez, o ego momentaneamente vencido. Há cansaço que sorri para as nossas dores, conhecedor da mágica capaz de fazê-las afrouxar: soltar.

Nem todo cansaço é ruim. Há cansaço que cria intervalos preciosos, férteis de transformação. Há cansaço que nos torna mais parecidos com nós mesmos, de novo ou pela primeira vez, e mais próximos do lugar em nós onde pulsa o que nunca se cansa. Há cansaço que nos leva ao instante, em que, exaustos, reverenciamos a vida e dizemos para ela mais ou menos assim:

- Entrego o meu cansaço, farta de perceber que, por mais que eu tente, não tenho controle com relação a tudo aquilo que, de verdade, importa. Eu me rendo à sua sabedoria, que me habita, embora tantas vezes eu esqueça. Por favor, me ensina a simplesmente fluir com você. Por favor, me ensina a simplesmente fazer florir as sementes que você me confia. Por favor, me ensina a simplesmente ser. De preferência, sem muito cansaço.

sábado, 31 de outubro de 2009

Porque o riso é tempero precioso

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Começando a despertar

Foto de Regina Bentes

Ana Jácomo

Não sei exatamente em que momento comecei a despertar. Só sei que tudo começou a ganhar uma cara que, no fundo, eu já conhecia, mas havia esquecido como era. Comecei a despertar do sono estéril que, com suas mãos feitas de medo e neblina, fez minha alma calar. E foi então que comecei a ouvir o canto de força e ternura que a vida tem.

Não sei exatamente em que momento comecei a despertar. Só sei que ninguém começa a despertar antes do instante em que algo em nós consegue deixar à mostra o truque que o medo faz. Só então a gente começa, devagarinho, para não assustar o medo, a refazer o caminho que nos leva a parir estrelas por dentro e a querer presentear o mundo com o brilho do riso que elas cantam. Só então a gente começa a entender o que é esse sol que mora no coração de todas as coisas. Não importa com que roupa elas se vistam: ele está lá.

Não sei exatamente em que momento comecei a despertar. Só sei que comecei a lembrar de onde é o céu e a perceber que o inferno é onde a gente mora quando tudo é sono. Comecei a sair dos meus desertos. E a olhar, ainda que timidamente, para todas as miragens, sem tanto desprezo, entendendo que havia um motivo para que elas estivessem exatamente onde as coloquei. Nenhum livro, nenhum sábio, nada poderia me ensinar o que cada uma me trouxe e o que, com o passar do tempo, continuo aprendendo com elas. Dizem que só é possível entendermos alguns pedaços da vida olhando para eles em retrospectiva. Acho que é verdade.

Não sei exatamente em que momento comecei a despertar. Só sei que comecei a compreender o respeito e a reverência que a experiência humana merece. A me dar conta de delícias que passaram despercebidas durante um sono inteiro. E a lembrar do que estou fazendo aqui. Ainda que eu não faça. Ainda que os vícios que o sono deixou costumem me atrapalhar. Ainda que, de vez em quando, finja continuar dormindo. Mas não tenho mais tanta pressa. Comecei a aprender a ser mais gentil com o meu passo. Afinal, não há lugar algum para chegar além de mim. Eu sou a viajante e a viagem.

Não sei exatamente em que momento comecei a despertar. Só sei que comecei a querer brincar, com uma percepção mais nítida do que é o brinquedo, mas também com um olhar mais puro para o que é o prazer. A ouvir o chamado da minha alma e a querer desenhar uma vida que passe por ele. A assumir a intenção de acordar a cada manhã sabendo para o quê estou levantando e comprometida com isso, seja lá o que isso for, porque, definitivamente, cansei de perambular pelos dias sem um compromisso genuíno. E comecei a gritar por liberdade de uma forma que me surpreendeu. Antes eu também gritava, mas o medo sufocava o grito para que eu não me desse conta do quanto estava presa.

Não sei exatamente em que momento comecei a despertar. Só sei que comecei a desejar menos entender de onde vim e a desejar mais aprender a estar aqui a cada agora. Só sei que descobri que a solidão é estar longe da própria alma. Que ninguém pode nos ferir sem a nossa cumplicidade. Que, sem que a gente perceba, estamos o tempo todo criando o que vivemos. Que o nosso menor gesto toca toda a vida porque nada está separado. Que a fé é uma palavra curta que arrumamos para denominar essa amplidão que é o nosso próprio poder.

Não sei exatamente em que momento comecei a despertar. Só sei que não importam todos os rabiscos que já fizemos nem todos os papéis amassados na lixeira, porque todo texto bom de ser lido antes foi rascunho. E, por mais belo que seja, é natural que, ao relê-lo, percebamos uma palavra para ser acrescentada, trocada, excluída. A ausência de uma vírgula. A necessidade de um ponto. Uma interrogação que surge de repente. Viver é refazer o próprio texto muitas, incontáveis, vezes.

Não sei exatamente em que momento comecei a despertar. O que sei é que não quero aquele sono outra vez.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Sonho de uma Flauta

O Teatro Mágico

domingo, 25 de outubro de 2009

Presente

Foto de Regina Bentes

Ana Jácomo

Não sei muita coisa sobre mim porque raríssimas coisas que me dizem respeito permanecem inalteradas. Quando acho que sei, eu congelo, e me torno rígida, e resisto à fluição, e atrapalho o fluxo do mar da vida, e quase morro pelo esforço inútil de tentar amarrar as ondas. É quando menos sei que mais evaporo e me transformo em nuvens de ricas possibilidades, que, depois, viram a chuva capaz de fertilizar sementes de mudança nas terras áridas da minha ilusória estagnação.

Quando acho que sei, já mudei, mas ainda não sei. Quando acho que sei, já mudei, mas demoro a perceber. Fico lá, agarrada ao que já não é, chorando ou me encantando a partir de emoções que só fazem sentido para o que, na maioria das vezes, já deixei de ser. É quando menos sei que eu sinto mais. É quando menos sei que eu sei mais. É quando menos sei que eu sou com mais liberdade.

Não sei muita coisa sobre mim e já nem faço tanta questão assim de saber. O que realmente quero é criar espaço para viver a percepção nítida e inédita da beleza disponível de cada instante. Isso, sim, até onde eu pouco sei, é presente. E, quando estou alinhada com o tempo do meu coração, eu sei que é apenas isso, e tudo isso, o que há para ser desembrulhado. Para ser plenamente vivido. Nada mais.